Dona Nízia: a força e resistência da mulher nordestina

O nosso amado Rei do Baião, Luiz Gonzaga, já dizia na letra de sua aclamada música “O Xote das Meninas”, que quando o mandacaru “fulôra” na seca, é sinal que a chuva finalmente chegou no Sertão. A caminho do Sítio Tatu, no município de Arcoverde, era possível observar que, assim como na música, os mandacarus estavam florindo mais uma vez, para a alegria de dona Nízia Pereira Trindade, 79 anos; e de seus dois filhos, Donizete Pereira Trindade, 45; e Maria Celeste Pereira Trindade, 52.

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A chuva que caiu em abundância na região fez sangrar a cisterna-calçadão existente na propriedade há oito anos, e encheu o coração da agricultora de esperança. “Fazia tempo que a gente não via uma chuva assim. Em pouco tempo ela (a cisterna) já estava toda cheia”, comentou a contente dona Nízia, abrindo a cisterna e jogando a água armazenada para cima, em sinal de celebração.

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A agricultora conta que antes da chegada das tecnologias sociais, conseguir água para beber, cozinhar e plantar era um processo árduo e demorado. As longas caminhadas dela e de seus filhos traduzia como as famílias do Sertão e Agreste pernambucano sofriam para garantir o direito humano fundamental, que é acesso à água. “A gente carregava quatro latas em cima de uma équa que tínhamos, era pouca água. Quando a gente chegava em casa, não dava para quase nada. Tomar banho era raridade, a gente só fazia lavar os pés de noite antes de dormir, porque ficavam muito sujos depois da caminhada”, disse o filho mais novo de dona Nízia, seu Donizete.

Além de tentar conseguir água para ela e sua família, dona Nízia também ia buscar água para sua mãe, que na época não tinha mais condições de percorrer logos trajetos em busca de água. “Minha mãe andava cerca de 12km, já muito idosa, para buscar água. Eu tinha muita pena dela, então mesmo tendo meus filhos para criar eu fazia questão de ajudar. Era muito triste ver ela nessa situação, com uma lata d’água na cabeça. Só de ida a gente gastava duas horas pra chegar, e trazíamos a lata na cabeça quase meia”, conta.

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Segundo a agricultura, os dias de lamento e martírio acabaram com a vinda das cisternas de primeira e segunda água para a propriedade. A cisterna calçadão foi conquistada em meados do ano de 2010, através do Programa Uma Terra e Duas (P1+2), executado pela Cáritas Diocesana de Pesqueira. A família ficou sabendo da chegada da segunda água através da Associação do Sítio Carrapateira, e recebeu o incentivo da liderança da comunidade, Sr. Agnaldo, para que fosse atrás da cisterna para a produção de alimentos. “Foi ele que conheceu a Cáritas pela primeira vez e me incentivou a ir para as reuniões da Associação que aconteciam uma vez por mês. Comecei a participar com frequência e logo depois começaram a fazer as visitas aqui para avaliar meu terreno, se eu tinha condições de receber a cisterna”, disse dona Nizia.

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Nesse longo período de oito anos com a tecnologia social, dona Nízia fala orgulhosa de que nunca mas faltou água em sua casa e que nunca a cisterna calçadão ficou totalmente vazia. “Água é vida, sem ela a gente não se movimenta. Eu e meus filhos sempre tivemos o cuidado de poupar a água, de usar com consciência, porque só quem já passou por uma seca sabe o que é dar valor a um pingo de água”, salienta.

Para seu Donizete, os períodos de seca não atingem mais a família como acontecia antes da cisterna. Ele conta que na longa estiagem dos últimos anos, a cisterna da família permaneceu com água, e que graças a ela eles conseguiram passar esse período com resiliência. “De 2012 a 2015 passamos por um grande sufoco por aqui, e a gente não deixou ela secar. A de primeira água secou, mas essa se manteve firme e forte com a de 52 mil litros, e foi o que nos fez sobreviver nesse período”, lembra o agricultor.

Hoje, nos sete hectares do Sítio Tatu, além de verduras e legumes, dona Nízia produz principalmente frutíferas como mamão, maracujá, pinha, banana, acerola, graviola, manga e goiaba. A agricultora ainda conseguiu ampliar a sua renda a partir da chegada da tecnologia social, pois começou a comercializar na feira local algumas frutas, galinhas e ovos. Feliz com a chuva que fez sangrar sua cisterna, a agricultora diz que hoje consegue dormir tranquila ao pensar em como passar por mais um período de estiagem. “Com chuva ou sem chuva, eu estou produzindo aqui. Levanto minhas mãos para agradecer a Deus por cada dia e pela minha cisterna ali do quintal”, diz sorrindo.

 

 

 

 

 


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